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Novos tempos
pedem respeito à diferença
Abrir espaço para aceitar os seres humanos em sua diversidade é o desafio
da sociedade atual
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Beline Paulo de Moraes Correia

Benedito Coelho

Nicomedes Carlos do Nascimento Silva, o Nino

Dr. Antonio Augusto Couto de Magalhães

Eliana Ormelezi, psicóloga
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Há um quarto de século, o paraibano Beline Paulo de Moraes Correia bateu na porta do Lar Escola São Francisco, em São Paulo, para pedir um copo de água. “Acabei ficando. Imagine se eu tivesse parado para almoçar”, brinca. Hoje ele atua na oficina ortopédica, uma das fontes de renda desta entidade que acaba de completar 60 anos.
Com ele trabalha Benedito Coelho, 69, que lá chegou em março de 1945, um dos 13 meninos acolhidos pela professora Maria Hecilda Campos Salgado, a fundadora deste centro brasileiro de reabilitação para deficientes físicos no Brasil.
Entre os 1.600 atendimentos por dia do Lar Escola estão pessoas com defeitos de nascimento, outras que o adquiriram por conta da violência urbana, acidentes de trabalho ou automobilísticos, outros ainda causados por doenças, como amputações de membros em função de diabetes sem o devido controle.
O trabalho é exemplar, mas o fato é que esta instituição modelo recebe a ponta de um iceberg. Segundo o Censo 2000 do IBGE, 14,5% da população brasileira possui algum tipo de alteração visual, motora, física, auditiva, mental ou física. São milhões de habitantes com necessidades especiais.
Ensinar a viver Para atendê-las, o Lar Escola oferece apoios psicológico, médico e odontológico, entre outros. Há também uma escola de ensino fundamental, que atende 120 crianças com deficiência física. “Nosso objetivo é reabilitar a pessoa para que ela se integre à sociedade”, explica Antonio Augusto Couto de Magalhães, diretor de comunicação da entidade e professor de Ortopedia da Universidade Federal de São Paulo, que administra o Lar Escola.
Objetivo partilhado pela Lara-mara Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. Em 12 anos de atividades, a instituição já atendeu 6.000 portadores de deficiências oculares.
No rol de atividades da Laramara estão a habilitação de crianças de 0 a adolescentes de 15 anos. Há também o programa de educação para o trabalho. “São 420 horas distribuídas em três meses, que compreendem de aulas de ética e cidadania aos cursos de capacitação,
Daí a importância dos cursos oferecidos pelas entidades, que preparam ou reabilitam os portadores para assumir uma função. Muitos dos formados são absorvidos na própria instituição.
É o caso de Nicomedes Carlos Nascimento Silva, 27, o Nino, técnico do estúdio de áudio da Laramara. Há dez anos, um acidente de automóvel quando guardava o carro para o pai na garagem, no dia do seu aniversário, o fez perder 100% de visão no olho direito e 92% no esquerdo.
O então estudante do colegial levou dois anos de um hospital a outro, fazendo cirurgias, até receber o diagnóstico de que ficaria com 8% de visão. “Fiquei totalmente atordoado. Eu nunca havia tido contato com uma pessoa deficiente”. E mais dois até tomar a decisão de dar a volta por cima e procurar um emprego.
Casado com Rosemeire e pai de Maria Beatriz, de 9 meses, Nino leva vida normal. “Sou uma pessoa que trabalha, estuda e sonha”, diz o estudante de jornalismo. “As pessoas até se esquecem que tenho uma deficiência visual”.
Organizações como a AVAPE, fundada em 1982 por funcionários da Volkswagen, tem se destacado como ponte entre os deficientes e as empresas, fornecendo mão-de-obra para corporações como as do setor automobilístico. Graças a ela, pessoas como Dalva Silva Lima, que atua no centro de atendimento ao cliente da Volkswagen, podem exercer sua profissão com respeito e dignidade.
A lei 8.213/91, regulamentada pelo decreto 3.298/99, estabelece cotas obrigatórias de portadores de deficiência nas proporções de 2 a 5% de funcionários contratados. Hoje não se busca privilégio nem paternalismo, mas uma chance para mostrar a competência. “Podemos fazer as mesmas coisas que todos fazem. Apenas o fazemos de uma forma diferente”, pondera Nino. Parece que finalmente, num mundo norteado pelo conceito de preto ou branco, tenha chegado a hora das nuances.

Abertura para o novo

Terapeuta Viviane Albernaz e Sabrina Costa da Silva, 2 anos |
O desafio de aceitar o outro já passou por várias fases. Nos anos 80, a ênfase ficou por conta da integração. O mote era habilitar ou reabilitar a pessoa para ela se inserir na sociedade. Hoje o estímulo ao desenvolvimento das potencialidades que a pessoa tem continua em alta. Mas busca-se a inclusão. A batalha agora não é apenas pela queda de barreiras arquitetônicas, de transporte e comunicação, que restringem o acesso social aos deficientes. Mas o alvo é a transformação das atitudes.
Na prática, trata-se de espalhar o respeito à biodiversidade humana. Não é fácil. Do ponto de vista histórico, não ser como os outros sempre foi um obstáculo e tanto. Pior. Num mundo competitivo e globalizado, conseguir um lugar ao sol não é simples nem para quem possui as funções biológicas íntegras.
O que dirá aos portadores de deficiências e suas famílias. Mas o avanço tecnológico sem paralelo na história da humanidade deixa claro que o mundo não muda de uma hora para outra. Mas muda. E a sociedade acaba acompanhando.
Atitude inclusiva na prática
Veja como incluir o respeito à diversidade humana no dia-a-dia:
1. Abra-se. Procure perceber a necessidade do outro de maneira respeitosa. O que inclui oferecer ajuda, porém não se ofender se ela não for aceita.
2. Informe-se. O conhecimento é a base para compreender o diferente. Leia jornais e revistas, acesse os sites, fique por dentro dos assuntos.
3. Atualize-se. Um professor que aceita um aluno especial em classe tem de aprender novos métodos, que acabam beneficiando a turma toda. Isso vale para todas profissões.
4. Crie espaços. Empresários podem abrir a possibilidade de deficientes concorrerem às vagas. Ou apoiar projetos de responsabilidade social.
O caminho da ajuda
Veja como auxiliar estas causas:
Voluntariado - Se você tiver um tempinho disponível, as instituições aceitam ajuda de bom grado.
Doações financeiras - Quem está com a agenda cheia, mas possui alguma quantia disponível, pode doá-la por meio de depósitos bancários.
Doações de objetos - Móveis, roupas e outros artigos que não estão sendo usados podem ser enviados às instituições, que os revendem em bazares, como o Samburá do Lar Escola São Francisco, de São Paulo.
Reciclagem - Muitas instituições coletam latas de alumínio, garrafas plásticas, vidros e papéis que são comercializados para incrementar a renda da entidade. |