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RECEITA
Qualidade de vida
para portadores de epilepsia

Profª Dra. Marly de Albuquerque
Presidente da Associação Brasileira de Epilepsia (ABE) |
As epilepsias são um problema de saúde pública, ocorrem em todas as idades, acometem ambos os sexos e todas as camadas sociais, podendo acarretar grande variedade de problemas físicos, psicológicos, sociais e econômicos, que tendem a ser piores em nosso país devido a pobreza.
É estimado que a prevalência das epilepsias em nosso país é de aproximadamente 2% da população, sendo ainda desconhecida a porcentagem de pacientes sem diagnóstico e tratamento. Os custos econômicos diretos e indiretos das epilepsias em nossa região são muito altos. Com a falha diagnóstica e terapêutica, ocorre piora do prognóstico médico, social, econômico e o índice de mortalidade é maior que na população geral. Com o tratamento correto, obtém-se controle das crises na maioria dos pacientes e uma melhor qualidade de vida.
As epilepsias têm evocado reações que variam do mistério ao medo, geralmente vistas como mensagens do sobrenatural. Entretanto, os portadores de epilepsia e seus familiares têm sido colocados à margem da sociedade e privados de tratamento adequado. Esses mitos e conceitos errôneos somente podem ser vencidos pela educação dos pacientes, familiares, comunidade e agentes de saúde. Cada um tem um papel a desempenhar nessa luta para a redução do estigma, ajudando os pacientes e seus familiares a levarem vidas normais.
Enquanto o estigma e a discriminação continuam a ser os maiores obstáculos enfrentados pelos portadores de epilepsia em todo o mundo, em nosso país, muitos pacientes ainda nem têm acesso ao diagnóstico e aos benefícios do tratamento médico.
Se com o tratamento médico adequado consegue-se o controle das crises em cerca de 70 a 80% dos pacientes, é tempo de nos perguntarmos porque 80 a 90% dos portadores de epilepsia em nosso continente não estão sendo adequadamente tratados. Precisamos encontrar as respostas e agir imediatamente.
As atitudes frente às epilepsias em nosso continente são mais negativas que nos países desenvolvidos, devendo estar relacionadas ao nível de escolaridade e educação. As razões para não conceder empregos para os portadores de epilepsia estão muito mais relacionadas ao estigma e preconceito que por razões de segurança. Uma significante parcela da população acredita que as pessoas com epilepsia não estão aptas ao trabalho.
A falta de condições sanitárias pode ser o fator social mais importante relacionado às epilepsias. No Brasil, a neurocisticercose é uma das causas mais freqüentes das epilepsias sintomáticas, assim como acidentes vasculares cerebrais, etilismo e abuso de drogas, desnutrição, infecções, trauma craniano; todas situações altamente prevalentes nos países em desenvolvimento.
A qualidade de vida geralmente é comprometida, devido à natureza da epilepsia e efeitos associados. A educação, atividade profissional, casamento e funcionamento social são muito afetados e o indivíduo geralmente tem problemas pessoais. As atitudes discriminadoras da sociedade tornam a situação ainda pior. É assim que as atitudes sócio-culturais, mais que a epilepsia per se pioram a qualidade de vida das pessoas com epilepsia.
Educação
Em nosso país, temos trabalhado com os professores, pois são os adultos que têm maior contato com as crianças e um papel fundamental como educadores. Com muita freqüência as crianças não são mandadas para a escola, ou são vítimas de atitudes segregacionistas dos professores, que as mantêm separadas de determinadas atividades escolares. Eventuais dificuldades podem decorrer dos efeitos adversos dos medicamentos anti-epilépticos, mas muito freqüentemente aparecem em função do estigma e preconceito enfrentado pelo paciente. Não existe condição para o atendimento inicial da criança que apresenta uma crise na escola, os colegas de sala não são orientados no procedimento correto e não são informados na escola. Essas atitudes geralmente levam as crianças a abandonarem a escola e descontinuarem sua educação. Às vezes, os familiares e a sociedade agravam esses aspectos, rotulando a criança como um fracasso. A perda de anos escolares, separação dos colegas, parentes e vizinhos podem levar a criança ao isolamento social, criando então um sentimento de inferioridade, que geralmente leva aos fracassos na vida adulta.
Emprego
O trabalho é um importante fator para o ajustamento psicossocial. O desemprego e subemprego são muito freqüentes em pacientes epilépticos e a resistência do empregador parece ser o principal fator responsável. Apesar de muitos portadores de epilepsia serem economicamente ativos em suas comunidades e outros, mesmo com maior dificuldade, apesar da interferência das crises, conseguirem se manter profissionalmente, habitualmente têm dificuldade para conseguir e manter seus empregos; estando geralmente em subempregos ou trabalhos temporários. Perda do emprego, ou baixa renda leva a pessoa a ser menos produtiva e uma carga para a família.
Impacto na família
Um grande número de problemas familiares, como conflitos interpessoais, superproteção e rejeição, podem levar a dificuldades de relacionamento na vida adulta. Essas dificuldades usualmente geram sentimentos de desesperança, inutilidade e inferioridade, podendo levar à depressão, isolamento social e até mesmo ao suicídio.
Os efeitos combinados das epilepsias na família, escola e local de trabalho têm um impacto significante no funcionamento psicossocial do portador de epilepsia.
As associações auxiliam na integração dos pacientes e seus familiares e ajudam a esclarecer informações a respeito de seu problema de saúde. Nelas, eles aprendem a lutar por objetivos próprios e comuns, podendo assumir seus papéis sociais.
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Como melhorar a situação atual: |
| Criação ou melhoramento de programas para epilepsias, que podem utilizar equipes de saúde locais, monitorando informações para portadores. |
| Adoção de programas de treinamento regulares para capacitar o médico para diagnóstico e tratamento. |
| Criação de programas com a participação da comunidade, para professores e empregadores, envolvendo-os na prevenção e controle das epilepsias. |
| Assegurar o fornecimento regular e contínuo dos medicamentos anti-epilépticos. |
| A educação é um passo fundamental para a comunidade, bem como para portadores e familiares. Os tópicos principais devem ser: remoção do estigma, melhorando a aderência ao tratamento e disseminação de informações sobre primeiros socorros. Informação apropriada deverá ser fornecida regularmente. |
| As associações de epilepsia precisam de uma rede de profissionais e grupos locais para a promoção de programas de educação em epilepsia. E cada região deve designar uma de suas instituições como centro de referência. |
Objetivos para o futuro
- Incluir as epilepsias na agenda de saúde pública e manter o fornecimento regular de medicamentos anti-epilépticos
- Desenvolver guias para prevenção e tratamento das epilepsias
- Melhorar a qualidade de vida das pessoas com epilepsia
- Estabelecer estratégias de tratamento em serviços de saúde pré-existentes
- Desenvolver serviços de referência em áreas geográficas definidas
- Trabalhar juntos para criar esperança para as pessoas com epilepsia
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