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CAPA
Violência
Um sério problema de saúde pública
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Dr. Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra
Dr. Antonio Carlos Lopes, psiquiatra

Dr. José Sérgio Franco,
ortopedista
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A cada ano, 1,6 milhões de pessoas, no mundo, perdem a vida violentamente. As mortes e as deficiências físicas constituem um dos mais graves problemas de saúde pública de nossos tempos. É o que alerta o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Vivemos hoje um momento de frustração, agressividade, injustiça, sentimentos que favorecem a violência”, ressalta o Dr. Eduardo Ferreira Santos, do Núcleo de Stress pós-traumático do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Atualmente, segundo o médico, é freqüente muitas pessoas se sentirem ameaçadas, ou seja, acharem que vão necessariamente sofrer algum tipo de violência, o que gera medo, ansiedade e abre caminho para distúrbios que afetam a qualidade de vida.
Violência urbana
As violências mais comuns que presenciamos na vida diária, especialmente, nas grandes cidades, são vítimas de roubo, assalto, briga e acidente no trânsito, além de seqüestros, sem contar homicídios, maus tratos à criança e as agressões domiciliares contra a mulher.
A má distribuição de renda e o desemprego são alguns dos fatores apontados por estudos como motivadores da violência. Porém, ressalta o médico, nada justifica a perversidade com que determinadas agressões são cometidas. “Em geral, essas pessoas já possuem distúrbios de personalidade”, complementa.
O uso de drogas e do álcool, que altera o comportamento, também está intimamente associado a um aumento de violência, indicado pelo maior número de atendimento a vítimas no pronto-socorro aos finais de semana, destaca o Dr. José Sérgio Franco, que preside a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.
Stress pós-traumático
O impacto da violência na saúde das pessoas pode ser mensurado de variadas maneiras. Quem sofre um ato de agressão pode desenvolver com maior ou menor intensidade um tipo de distúrbio, que prejudica o desempenho e o bem estar.
O chamado stress pós-traumático costuma ser um quadro de relativa curta duração (pode durar até um mês) e é uma reação aguda, explica o Dr. Antonio Carlos Lopes, psiquiatra do Ambulatório de Crise da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O risco de vida, em geral, é o principal fator desencadeante.
Tratar é importante
O stress pós-traumático pode ser tratado, em geral, por meio de psicoterapia e medicamentos. Segundo os médicos, não há regras que determinem o tempo de tratamento, que pode variar a depender do caso.
O uso de medicação, geralmente com antidepressivos, deve sempre ter orientação e prescrição médica. “E o tratamento psicoterápico consiste num tipo de terapia (individual ou em grupo) para ensinar a vítima a enfrentar o que ela evita”, ressalta o Dr. Antonio, da Unifesp. Ele diz que esse é o processo de ‘exposição cognitiva'. O objetivo, reforça o Dr. Eduardo, é trabalhar o trauma e suas implicações, transformando as feridas em cicatrizes. A pessoa, porém, sempre terá uma marca. Ela ficará mais desconfiada, temerosa, enfim, muda um pouco de alguma forma. Mas, sem dúvida, volta - após tratamento - a retomar as atividades diárias e recuperar a qualidade de vida.
É importante buscar ajuda médica e tratar de maneira adequada para evitar as complicações à saúde como pânico, depressão ou agravar algum problema que a pessoa já tinha como uma esquizofrenia.
E evitar também repercussões negativas como a perda do emprego. “Há pessoas que chegam a se demitir. E outras que, depois de terem passado por um seqüestro, desconfiam de tudo e qualquer pessoa passa a ser um suspeito em potencial”, relata o Dr. Eduardo, do HC.
Angústia pelo outro
A sensação de angústia e ansiedade também acontece pelo outro: pelo vizinho, amigo, parente. A revolta que sentimos pela dor do outro bate a nossa porta. O sobrinho do senhor Ernesto levou cinco tiros, em Goiânia, há pouco tempo, quanto tentava ajudar a cunhada que estava tendo seu carro roubado. A mãe de um amigo de Carlos foi seqüestrada e libertada, após resgate. A família preferiu colocar uma pedra no assunto, redobrou os cuidados e não fala a respeito.
Não desistir Redobrar cuidados, tentar minimizar os riscos de sofrer uma agressão, prevenir uma situação violenta, sem dúvida, são atitudes que traduzem boas iniciativas. Porém, é importante ter clara a noção exata de que risco não é ameaça. “Não se pode deixar de viver”, ensina o Dr. Eduardo. E caso você vivencie uma violência, procure manter a calma e não perder a consciência.
E é muito importante saber que o stress pós-traumático pode ocorrer depois de meses de uma situação de violência, alerta o especialista. Portanto é preciso ficar atento ao comportamento e à necessidade de procurar ajuda especializada e não permitir que o ato execrável de um outro ser possa comprometer a sua saúde e a sua felicidade. Podemos estar vivendo um momento difícil, uma época violenta que, sem dúvida, favorece doenças e tristezas. Mas, não podemos, jamais, desistir. Essa é uma premissa, básica, pelo direito à vida.
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Experiências

Ernesto Golsalves,
62 anos |
Talvez a sensação de sentir-se impotente diante de uma agressão seja um dos piores sentimentos. O senhor Ernesto Gonçalves, 62 anos, foi assaltado cinco vezes. No último episódio, à mão armada. “Senti muito medo quando o assaltante ameaçou - se gritar ou for atrás de mim, eu te mato”, conta.
Infelizmente, vivenciar mais de um episódio de violência é mais comum do que se imagina. Carlos Alexander Lopes Gabriel, 33 anos, já enfrentou vários episódios: num assalto foi agredido e levou 14 pontos no rosto; na praia, teve sua casa invadida por um bandido - “essa foi a pior sensação que tive: alguém invadindo sua própria casa, sua privacidade, sua vida”, confessa. Por último, foi rendido na entrada do prédio onde mora e sofreu um seqüestro relâmpago.
Não há regra a seguir. Lucineide Albuquerque, 29 anos, foi assaltada quando chegava em casa, de madrugada, por três homens. Por medo de ser levada no carro ou violentada, ela gritou e acabou sendo agredida e deixada na rua. A partir desse dia a vida dela mudou: passou a verificar inúmeras vezes se a porta de casa estava trancada, não saía mais sozinha. Abandonou a cidade grande, largou tudo e foi morar num pequeno município. Ainda assim, ela diz que à noite, ao passar por um rua escura, o coração acelera. “Não posso controlar”, relata. |
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