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RECEITA
Fome Zero

Dra. Silvia Franciscato Cozzolino
Presidente da SBAN - Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição |
E muito louvável que nosso atual presidente e sua equipe tenham como prioridade a “Fome Zero” no Brasil, e, independente dos conceitos que possam ser entendidos como FOME, sem dúvida, a solução da questão alimentar de nossa população merece a atenção de todos os brasileiros. A questão da alimentação tem sido debatida há muito tempo não apenas no Brasil, mas no mundo, e, não se tem falado apenas em proporcionar o alimento para a população, mas também de como através dos alimentos pode-se estar melhor nutrido.
De nada adianta distribuir simplesmente alimentos para a população se paralelamente não se fizer um programa de educação nutricional mostrando a importância dos alimentos para a manutenção da saúde e redução do risco de doenças. Os indivíduos bem nutridos têm maior resistência a doenças, seu desenvolvimento intelectual é melhor e gastam menos recursos econômicos em tratamentos médicos e hospitalares, melhorando a economia do país como um todo, e favorecendo o desenvolvimento tanto regional como global.
Desde 1982 temos trabalhado buscando o melhor conhecimento da dieta brasileira, verificando quais são os nutrientes mais deficientes e procurando formar recursos humanos com capacidade de desenvolver ações para melhorar a situação vigente. Em todos os trabalhos realizados por nosso grupo tem-se detectado que diferente do que se supunha antigamente, não existe um déficit muito grande na dieta em termos protéicos, embora a quantidade total de alimentos em alguns casos seja deficiente. A quantidade de gordura que até uns anos atrás poderia ser considerada como adequada, hoje está aumentando com todas as conseqüências que sabemos pode desencadear, a quantidade de carboidratos simples (açúcares em geral), principalmente nas classes menos favorecidas que não têm acesso a informação, também acaba sendo alta e desta forma também prejudicial, levando ao quadro atual de aumento da obesidade e de outras doenças crônicas não transmissíveis. A falta de atividade física é outro fator que colabora com este quadro, pois o sedentarismo leva a um menor gasto calórico, com isto, o indivíduo para manter seu peso deveria ingerir menos alimento, e o fazendo não teria condições de ingerir todos os nutrientes que necessita, o que poderia levar a alguma deficiência, entretanto, normalmente o que ocorre é a manutenção de uma ingestão calórica maior do que seria o gasto com conseqüente au-mento da obesidade.
Quando observamos que a ingestão de gordura está aumentando, alguns fatores podem estar contribuindo para este comportamento, um deles seria o custo, pois os alimentos fontes de gordura não são caros, e embora a maioria dos indiví-duos reconheça que o excesso deve ser evitado, acabam sucumbindo ao odor e sabor de produtos fritos ou de molhos e queijos gordurosos. Por outro lado, o conhecimento de que fontes de gordura podem ter efeitos diferentes no orga-nismo também é desconhecido da popu-lação, e embora se saiba que existam áci-dos graxos saturados, insaturados e trans, a maioria da população não entende o significado destes termos, da mesma forma como ocorre com o colesterol, de-monstrando mais uma vez a necessidade de que conhecimentos científicos sejam divulgados de forma mais simples para a população. Em relação aos carboidra-tos, considerados como a base da alimen-tação, também existem diferenças entre eles, e a antiga pirâmide alimentar já está sendo alterada em função de novas observações dos índices glicêmicos dos alimentos. Já quanto às fibras e aos micronutrientes, muito temos aprendido nos últimos anos e cada vez mais nos deparamos com resultados de deficiências em nossa população. A deficiência de micronutrientes é conhe-cida como FOME OCULTA, oculta, porque normalmente só se percebe quando a deficiência já é muito grave, devido à dificuldade de se diagnosticar, entretanto, não é de menor importância e não deve ser desprezada.
Felizmente neste ano, ações governa-mentais estão sendo implementadas, obrigando a fortificação de farinhas de trigo e milho com ferro e ácido fólico. A fortificação de alimentos é a melhor forma de intervenção a médio e longo prazos para a melhoria do estado nutri-cional de grupos de risco da população. A suplementação via medicamentosa também pode ser utilizada em situações de maior gravidade. Portanto, os problemas relacionados à alimentação e nutrição existem e precisam ser solucio-nados, entretanto, somente uma equipe multidisciplinar, com profissionais da área da saúde, da área econômica e social, poderá elaborar políticas adequadas, que não sejam apenas assistencialistas, mas que proporcionem maior possibilidade de trabalho remunerado, maior incentivo à agricultura com conseqüente aumento da oferta de alimentos a custos reduzidos, com educação nutricional dirigida para a escolha correta dos alimentos e de formas de preparo para assegurar o valor nutritivo, de orientação higiênico-sanitá-ria para redução das doenças transmitidas pelos alimentos, que as indústrias de alimentos tenham metas voltadas à saúde no desenvolvimento de seus produtos e desta forma disponibilizem para o mercado alimentos mais saudáveis. Assim teremos um desenvolvimento sustentável, que poderá a médio e longo prazos ser um modelo de política que deu certo. Trabalhando todos juntos, acade-mia, indústrias e governo, com vontade e determinação, poderemos alcançar o bem maior de melhorar a qualidade de vida da nossa população e alcançar melhor desenvolvimento econômico e social.
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