Revista Saúde Brasil 4

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Revista Saúde Brasil
Fev / Mar 2003
Ano 1 - Nr. 4

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Fé e Saúde


Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns
Arcebispo Emérito
de São Paulo

Quando se fala de fé e saúde, a primeira idéia que salta na cabeça das pessoas são os milagres de cura, realizados por Jesus, por seus apóstolos, pelos santos ou nos santuários de Nossa Senhora. Não se pode negar os milagres de cura de Jesus, dos apóstolos, dos santos ou de Nossa Senhora. O próprio Cristo disse à hemorroíssa que acabara de ficar curada: “Minha filha, a tua fé te curou; vai em paz e fica curada deste teu mal” (Mc 5, 34).

Em Atos 14, 8-10, conta-se que “vivia ali um homem aleijado dos pés desde a nascença, coxo e incapaz de andar. Ele escutava Paulo discursar. Este, detendo nele o olhar, vendo que tinha fé para ser curado, disse com voz forte: ‘Levanta-te direito sobre os teus pés.' Ele deu um salto e começou a caminhar”.

Saúde, porém, não é apenas ausência de doença. Saúde é plenitude de vida. O próprio Cristo disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Em termos leigos, a OMS (Organização Mundial de Saúde) definiu a saúde como “estado de completo bem estar físico, psíquico e social”. A plenitude de vida, anunciada por Cristo, não considera o ser humano apenas em sua realidade que vai do nascimento à morte. A plenitude de vida cristã vincula o homem a Deus, não apenas como criador, mas também como seu destino último, numa eternidade, onde tudo será vida e nada mais. É sob esta luz, que a fé cristã encara a plenitude de vida. Doença e morte fazem parte de toda vida humana. Não há progresso científico e técnico que consigam superar esta realidade. Mas na visão cristã existe uma outra realidade que conflita com a vida: a maldade humana, cujas conseqüências sobre a vida e sua plenitude não podem passar despercebidas.

Toda doença biológica rompe a harmonia própria do ser vivo e acarreta mal-estar, disfunções, carências. Seu relacionamento consigo mesmo, com os outros e com a realidade que o cerca fica transtornado. Mas no ser humano, dotado de capacidade de compreender as coisas, de liberdade e responsabilidade, existem realidades de ordem espiritual que o transtornam mais profundamente que os demais seres vivos. O ser humano instala uma desordem que vai além da doença. Esta desordem, exclusiva do ser humano, chama-se maldade ou, em termos bíblicos, pecado. Seus efeitos sobre a vida e sobre o meio ambiente próprio à vida são mais graves que qualquer doença. Cristo foi apresentado por São João Batista como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), isto é, aquele que elimina o mais grave dos males do homem e origem de todos os males que afetam a humanidade. As curas biológicas, realiza-das por Cristo, não imunizavam as pessoas de posteriores doenças, nem da morte biológica. As curas de Cristo eram sinais de seu poder de redimir o homem de seu mal mais profundo: “Para que saibais que o Filho do Homem tem poder de perdoar pecados, disse ao paralítico: ‘Levanta-te, toma teu leito e vai para a tua casa'” (Mc 2,11).

São Paulo descreve da seguinte forma a maldade humana, fruto do distanciamento de Deus: “Mente incapaz de julgar, para fazerem o que não presta; repletos de toda sorte de injustiça, perversidade, avidez e malícia; cheios de inveja, assassínios, rixas, fraudes e malvadezas; detratores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, fanfarrões, engenhosos no mal, rebeldes para com os pais, insensatos, desleais, gente sem dó nem piedade” (Rm 1, 29-31). Quanto mal-estar, quanto sofrimento e quantas mortes essas atitudes humanas trazem?

Pois é justamente para mudar essas atitudes, causadoras de tanto sofrimento e morte, que a religião existe. E são essas atitudes que fazem com que se propaguem indiferenças diante do sofrimento provocado pela doença. O sacerdote e o levita da parábola do Bom Samaritano são indicadores disso (cf Lc 10), bem como as pessoas que mandavam que Bartimeu se calasse para não incomodá-las (cf Mc 10, 46-53), ou ainda, o rico mau que se banqueteava todos os dias, ignorando a fome de Lázaro sentado à sua porta (cf Lc 16, 19-26).

As doenças biológicas, sejam quais forem, a ciência e a técnica oferecem os meios mais eficazes para combatê-las. Mas o uso dos meios, que a ciência e a técnica oferecem, podem ser desvirtuados por atitudes humanas marcadas por insensibilidade social, interesses financeiros, vaidades profissionais, carreirismos, etc.

Mas não se podem esquecer males causados diretamente pela maldade humana. Basta lembrar o tráfico de drogas, o comércio do fumo, a violência, o terrorismo, a péssima distribuição de renda, o protecionismo comercial dos ricos, as patentes de medicamentos, a falta de saneamento básico, o desemprego, a poluição do meio-ambiente, a poluição do ar, da água, do solo. E que pensar dos métodos contraceptivos que ferem a dignidade da pessoa? E das milhões de interrupções voluntárias da gravidez, que acontecem todos os anos no mundo? E a violência desenfreada nos grandes centros urbanos? A violência no trânsito com suas mortes? E as incontáveis chacinas? E os desregramentos sexuais, com todas as doenças e mortes que deles decorrem?

Tudo isso não provém de doenças que fazem parte da natureza e que podem ser tratadas mediante ciência e técnica, que a fé apóia, pois o Deus da natureza é o mesmo da revelação. A maldade instalada no coração humano escapa a qualquer tratamento farmacêutico ou meramente psicológico. Precisa da força que vem do alto. Requer mudança de mentalidade. Que deixe de ver as coisas à maneira puramente humana (cf Mt 16, 23) e passe a vê-las à luz de Deus. O mundo da saúde precisa de ciência, técnica, profissionais competentes, instituições de bom nível, mas acima de tudo precisa de mentes evangélicas que coloquem o bem da pessoa humana acima de qualquer coisa.

“Ora, um ser humano vale bem mais que uma ovelha” (Mt 12, 12).