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RECEITA
Promoção da saúde em portadores de Transtorno Bipolar do Humor

Prof. Dr. Ricardo Alberto Morenoo
Grupo de Estudos de Doenças Afetivas (GRUDA), Instituto de Psiquiatria HC FMUSP |
O transtorno bipolar do humor (maníaco-depressivo) (TBH) é um dos quadros nosológicos psiquiátricos mais consistentes ao longo da história da medicina, e suas síndromes são bem caracterizadas e reconhecíveis, permitindo diagnóstico precoce e confiável. Episódios de euforia e depressão são descritos há muito tempo e há atualmente dois critérios operacionais, o Código Internacional das Doenças – 10a edição (CID-10), da Organização Mundial da Saúde e o Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais – 4a edição (DSM-IV) da Associação Psiquiátrica Americana, são empregados na prática clínica e em pesquisa. O TBH tem uma prevalência estimada em 1,6% para a forma bipolar I e de 5 a 7% para a forma bipolar II. No Brasil, encontrou-se uma prevalência ao longo da vida de 1% em uma área de captação em dois bairros de classe média na cidade de São Paulo. A idade média de início do transtorno situa-se entre 10 e 30 anos de idade, com pico de incidência entre 15 e 19 anos de idade. O TBH segue um curso prolongado e com probabilidade cumulativa de recorrências em cinco anos ao redor de de 90%. É um transtorno com elevada mortalidade por suicídio (19%), sendo esta 23,4 vezes maior do que a da população geral.
Os tratamentos disponíveis são eficazes, tanto para as fases maníacas, depressivas e mistas, quanto para a prevenção de recaídas, com sucesso terapêutico estimado em 80% dos casos. Segundo publicação de 1998 da Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, o uso do lítio resultou em economia de US$ 145 bilhões desde 1979, resultando em grande redução de suicídios, divórcios, acidentes de carro, atos violentos e perda de produtividade. Estimativas mais conservadoras indicam que o impacto do lítio nos Estados Unidos foi de US$ 40 bilhões desde sua introdução em 1970, graças a reduções de custos de tratamento, mortalidade e incapacitação. Obviamente, tanto do ponto de vista econômico quanto médico-social, intervenções desse tipo são amplamente justificáveis e, do ponto de vista ético, até obrigatórias.
Os tratamentos mais eficazes para as fases agudas e de manutenção do TBH maníaco não têm sido disponibilizados eficientemente no mundo e, mesmo em países mais desenvolvidos que o Brasil, a redução da incapacitação decorrente desses quadros não passa de 50%. Isso tem sido atribuído em grande parte aos seguintes fatores: falta de capacitação profissional específica para o tratamento do TBH e o acompanhamento da litioterapia, falta de detecção precoce e intervenção efetiva por parte de pacientes, familiares e do sistema de saúde. Entre as síndromes do transtorno bipolar, as fases maníacas são as que mais resultam em internações agudas devido aos graves transtornos de comportamento e conduta de suas formas mais avançadas.
É evidente que a intervenção precoce e eficaz é essencial para a prevenção de morbidade e de internações nesses pacientes e que isso deve ser feito em dias e não semanas. Talvez por isso ocorram tão poucas internações de clientes de clínicas especializadas e centros universitários de excelência, em comparação com os índices para a população em geral. Por exemplo, dados do SUS indicam que mais de 10.000 AIH por ano no Estado de São Paulo são devidas a TBH. Entretanto, mesmo onde os serviços são mais bem estruturados, as internações de pacientes com TBH são ainda mais freqüentes do que o desejável, talvez devido à falta de detecção suficientemente precoce e acesso imediato à orientação especializada.
Duas providências são necessárias para reverter essa realidade: a efetiva disponibilização de lítio e outros estabilizadores do humor, e o aperfeiçoamento da detecção precoce e intervenção eficaz nas recaídas, antes que se agravem.
De fato, recentes estudos confirmam o que a prática clínica observa há décadas: detecção precoce de recaídas e intervenção efetiva permitem abortar fases maníacas e reduzir morbidade, internação e demais prejuízos pessoais, familiares e econômicos associados ao TBH. Por exemplo, os resultados de um estudo controlado da eficácia do treinamento de portadores de TBH na identificação de sinais e sintomas precoces de recaída e busca de tratamento como forma de prevenção de recaídas e internações mostrou, conforme o esperado a partir da experiência clínica, que os pacientes obtiveram redução significativa na freqüência de recaídas de episódios maníacos e aumento na duração dos intervalos livres de sintomas maníacos, embora sem maior impacto nas fases depressivas.
Uma das formas de promover a saúde desta clientela e da comunidade envolvida é, além da capacitação de postos de atendimento, a promoção educacional de pacientes, familiares, amigos e demais interessados em combater a tríade – ignorância, medo e preconceito. Para tal, o trabalho de associações como a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) deve ser estimulado e difundido. Com a sociedade reunida em torno de um objetivo definido pode-se promover a saúde e melhorar a assistência à comunidade. Conhecer a doença e aprender a conviver com ela diminui o ônus pessoal, social e econômico. |