Revista Saúde Brasil 2

Arquivo Revista Saúde Brasil

Revista Saúde Brasil
Out / Nov 2002
Ano 1 - Nr. 2

FARMÁCIA
Menopausa e Reposição Hormonal


Dr. César E. Fernandes

Veja orientações sobre TRH e alguns esclarecimentos sobre a pesquisa que causou polêmica e medo entre as mulheres.

Há muito ouvimos falar sobre repor hormônios após a menopausa, que marca a última menstruação, e quando o organismo feminino passa a correr riscos em função da deficiência hormonal decretada pelo período do climatério que ocorre, em geral, entre os 45 e 55 anos de idade.

Portanto, hoje em dia, a mulher tem a expectativa de viver quase a metade da vida pós-menopausa. “E diferente do conceito de tempos atrás, quando menopausa significava uma perda ou uma aposentadoria, passou a representar, inclusive, uma tranqüilidade do ponto de vista do exercício da sexualidade por não ter o medo do aspecto reprodutivo”, lembra bem o dr. Nilson Roberto de Melo, diretor científico da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo e presidente honorário da Federação Latinoamericana das Sociedades de Climatério e Menopausa.

A mulher de 50 ou 70 anos, hoje, cuida do corpo e da cabeça, quer ter mais qualidade de vida e busca ser mais feliz. E nesse contexto, junto com alimentação balanceada, exercícios, lazer, hábitos mais saudáveis, está a atitude de repor hormônios para tentar minimizar os riscos e prejuízos que a deficiência hormonal impõe à saúde (veja tabela).

TRH: decisão conjunta
Adotar ou não a TRH, Terapêutica de Reposição Hormonal, é uma decisão que deve ser tomada em conjunto entre médico e paciente. E mais: é uma medida feita sob medida. “Para facilitar o entendimento, imagine a TRH como uma peça de alfaiataria. O alfaiate escolhe o melhor tecido, analisando a cor, caimento e o estilo do cliente. Em seguida, tira rigorosamente todas as medidas. O resultado é uma peça única, com caimento perfeito, totalmente adaptada exclusivamente àquela pessoa”, enfatiza o dr. César Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Climatério e diretor de ensino do hospital Pérola Byington do Centro de Referência em Saúde da Mulher da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Da mesma forma, salientam os especialistas, não há uma maneira única de se repor hormônios. Existem diversas variações, combinações, formas de administração (oral, adesivos, gel, implantes ou via nasal ou vaginal).

“A avaliação de fatores de risco, das condições da paciente e a realização de exames é que vão determinar qual o tipo de tratamento adequado, considerando a via, tipo de hormônio e a dose”, explica dr. César.

A pesquisa americana
O estudo americano denominado WHI, “Women's Health Initiative”, reuniu mais de 27 mil mulheres menopausadas, com idade entre 50 e 79 anos e o objetivo primário era avaliar os efeitos da TRH sobre o risco de infarto do miocárdio e de câncer de mama. E foram divididas em dois grupos, com características diferentes e combinação de hormônios diferentes.

O segundo grupo, tratado com a associação de estrogênios e progesterona, por via oral, teve o estudo interrompido após 5,2 anos de seguimento médio das pacientes pois a incidência de câncer de mama ultrapassou os limites de segurança pré-estabelecidos para as pacientes do estudo. Detectou-se também aumento de risco para derrame, formação de coágulos e doença cardíaca como infarto.

É inquestionável o resultado do estudo, porém, segundo os médicos, é preciso saber fazer a leitura adequada. “O risco de câncer de mama na população feminina de 50 a 70 anos, sem repor hormônios, é de 45 em cada mil mulheres desenvolverem a doença. Essa pesquisa americana mostrou que depois de 15 anos de TRH, aumenta em 26 % o risco da doença, ou seja, surgirão 12 casos a mais na conta das 45 mulheres”, explica o presidente da Sobrac.

O mesmo estudo, porém, demonstrou que a terapia de reposição hormonal diminui o risco de câncer de cólon e fraturas de quadril provocada por osteoporose.


.Dr. Nilson R. de Melo

“O que é preciso ficar claro é que o estudo é válido, importante, porém, aplicado para aquelas mulheres naquele tipo de tratamento ( associação de estrogênio e progesterona). Não é válido para baixas doses e outras vias de administração. E nem para outros tipos de associações ou de hormônios”, explica o dr. Nilson Melo.

“Não há razão para pânico”, enfatiza o dr. César Fernandes. É importante que como este, novos estudos sejam feitos, que novas formas, dosagens, abordagens de repor hormônios sejam pesquisadas, visando gerar mais benefícios que riscos à saúde e à qualidade de vida da mulher após a menopausa.

“Uma tendência mundial, considera o especialista, tem sido a administração de baixas doses de hormônios em mulheres de idade mais avançada”.

E complementam: “são vários os pontos positivos que tem sido mantidos em relação à Terapêutica de Reposição Hormonal. Dentre eles, destacam-se a prevenção da Osteoporose e da Doença de Alzheimer, a diminuição do risco de fraturas de ossos, prevenção primária de doenças cardíacas e existem alguns estudos em andamento sobre os benefícios que talvez a reposição hormonal possa gerar sobre a perda de dentes e a degeneração macular senil (cegueira senil).

PONTOS A CONSIDERAR

Segundo os médicos ouvidos, alguns pontos merecem destaques e devem ser considerados no esclarecimento da polêmica gerada pela forma que foi divulgado o estudo americano sobre TRH.
Apenas um regime terapêutico foi utilizado, uma única dose dos hormônios e uma única via de administração foi testada (não se analisou outras formas)
Não se levou em consideração os aspectos clínicos singulares de cada paciente (que permitiriam personalizar o tratamento, otimizando benefícios e reduzindo riscos)
O aumento relativo de câncer de mama já era referido em estudos anteriores
O outro grupo de mulheres que estão usando apenas estrogênios não foi interrompido, continua sendo pesquisado
Os resultados são importantes mas devem ser restritos apenas ao regime de tratamento empregado às pacientes dessa faixa etária estudada

Mais informações:

Sociedade Brasileira de Climatério
Tel: (0xx11) 3781-1188
www.sobrac.org.br

Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo
Tel: (0xx11) 3884-1004
www.sogesp.com.br

Alerta
• Da mesma forma que é muito importante não se automedicar, é fundamental que a mulher não pare o tratamento de reposição hormonal, por conta própria, sem discutir com o seu médico.

• Nunca inicie qualquer tratamento hormonal
sem supervisão médica.

• Tratamento hormonal necessita prescrição e supervisão médica periódica.