Revista Saúde Brasil 2

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Revista Saúde Brasil
Out / Nov 2002
Ano 1 - Nr. 2


Dr. José Antonio Atta em atendimento no Hospital das Clínicas - São Paulo

CAPA

Humanização
no Atendimento Médico e Paciente:
um encontro de trocas


“A moderna Medicina preconiza que a relação médico-paciente é um encontro entre dois especialistas: um é o técnico e o outro o conhecedor da queixa e das implicações em sua vida. Então, só pode ser um encontro de trocas”
, salienta a dra. Bellkiss Wilma Romano, diretora do Serviço de Psicologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


Dra. Bellkiss W. Romano

Em milhares desses encontros que acontecem todos os dias pelos hospitais e unidades de saúde no país, a relação medico-paciente, muito freqüentemente, deixa a desejar. De um lado, o paciente, pela condição de não saber o que tem ou por estar enfrentando uma doença, em geral, fragilizado, vê o médico quase como um “deus” ou o contrário, a depender do quanto esse profissional conseguiu preencher sua expectativa no menor tempo possível. De outro, está o profissional de saúde, não raras vezes, dispondo de pouco mais de cinco, dez minutos para uma consulta, dada a fila de necessitados por saúde à espera de atendimento.

O desafio está na qualidade dessa interação, guardadas as proporções de expectativas, recursos e condições disponíveis da instituição, do conhecimento médico e das possibilidades para detecção e tratamento do problema de saúde, disponibilizadas pela Ciência.

É notório o avanço tecnológico e biológico dos últimos anos. Nunca, parece, as descobertas e as pesquisas foram tão bem sucedidas na busca da cura e controle de doenças, e isso, sem dúvida, é um benefício que abriu, já, o caminho para vivermos por mais tempo.

Entretanto, “não basta o conhecimento tecnológico, a relação do homem com a sua doença é muito mais do que de uma bactéria com o anticorpo e com a célula do sangue, é mais que isso. Permeia relações interpessoais e relações sociais. A relação saúde-doença, paciente-doença é muito mais complexa do que apenas um processo biológico”, pondera o dr. José Antonio Atta, chefe do Ambulatório de Clínica Geral, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, um dos maiores da América Latina.

É preciso conciliar o lado técnico com o humano e isso vem sendo foco de preocupação na formação do médico. A humanização tem sido repensada, ensinada, propagada, discutida em cursos, nos corredores entre médico e residente (jovem profissional), cobrada pelo paciente e seus familiares.

A importância de se estabelecer uma relação de respeito entre médico e paciente (e família) é fundamental para o momento do diagnóstico e para maior aderência a tratamentos. E, inclusive, quando se necessita dar uma notícia ruim. “É fundamental explicar de uma forma verídica as coisas. Não esconder a verdade do paciente. O que precisamos é transmitir a verdade de uma forma adequada, e para isso é preciso saber com quem estamos lidando”, enfatiza o dr. Antonio Sérgio Petrilli, diretor do Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc da Universidade Federal de São Paulo.

Saber ouvir
Podemos, todos, achar fácil saber ouvir o outro. Mas, não é. Tem sido considerada uma das tarefas mais complexas e desafiantes na relação médico-paciente. Segundo a dra. Belkiss, a empatia que é a capacidade de se colocar no lugar do outro para avaliar a situação com os valores desta pessoa é uma premissa básica. “De nada adiantará o brilhantismo de um diagnóstico se não for compartilhado com o paciente”, completa a especialista.

Quantas vezes cada um de nós já ouvimos alguém (ou nós mesmos) dizer: “Puxa, finalmente encontrei um médico que quis me ouvir e mais que isso: acreditou em mim”. Quando o paciente percebe que o profissional, de fato, o atendeu com atenção, preocupado com o seu sofrimento, conquista-se meio caminho. O enfermo fica pré-disposto a saber o que tem, conhecer melhor a sua doença, compreender a importância de seguir as orientações do médico.


Dr. José Antonio Atta

O dr. Atta, ao dar aula para o estudante de Medicina, ensina: “primeiro, você ouve com atenção o paciente. Ouvir com atenção, quer dizer, olhar. Ver o que está acontecendo, o que o paciente está sentindo, as mudanças no seu rosto na hora que ele conta os seus sintomas. Depois, escreve, dedica-se à consulta médica em si, e mesmo que ela seja curta, uma boa parte dela tem que ser reservada para a conversa com o paciente. Não basta entregar na mão dele uma receita. É preciso explicar de maneira que o paciente, independentemente do grau cultural ou sócio-econômico, compreenda.”

Concorda com essa visão, a cabeleireira Maria de Fátima da Conceição Santim, paciente do HC em São Paulo: “O médico tem que mostrar que sabe o seu problema. Não tratar você como se fosse qualquer coisa. Senão, a gente não sente confiança.”

A responsabilidade maior é do médico mesmo, pensa o dr. Atta, por crer que ele é o profissional, e por isso tem maiores condições, portanto, de saber como perguntar e informar ao paciente e o que fazer para melhorar essa relação.

Contudo, é bom que se registre o quão importante também é humanizar as condições de trabalho dos profissionais da saúde e cuidar de quem cuida, ou seja, amparar também o médico que enfrenta diversas tensões: o lidar com o sofrimento e com pacientes terminais, o receio de cometer erros, o contato com pacientes difíceis.


Dr. Antonio Sérgio Petrilli

Envolver-se, na medida
Um outro ponto importante na humanização do atendimento é o envolvimento do médico com o paciente, o que merece esclarecimento. “Esse envolvimento, salienta o dr. Petrilli, é muito mais uma habilidade. Não é você morrer junto com o seu paciente, chorar e sofrer com a criança com câncer e com a família dela, por exemplo. O envolver-se é o estar preocupado com o paciente. Sem falsidade. E isso o paciente e a família sentem e respeitam. Mas, não é o sentimento como um membro da família.”

Humanizar, portanto, requer estarmos conscientes do seu significado para também evitarmos equívocos e pieguices. Dizem que basta tentarmos fazer o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Pelo menos pensar: “se eu estiver doente (ou minha filha, meu pai, meu marido...) como eu gostaria de ser tratado pelo médico? E como eu gostaria de saber informá-lo, ajudá-lo, de forma rápida e organizada, para que ele pudesse diagnosticar e tratar o mais rapidamente possível e da melhor maneira?”.

Aliás, o comportamento do paciente também é fator determinante no bom resultado de uma consulta. Ainda que se veja numa condição delicada, angustiante e seja comum o medo do médico, o receio de receber o diagnóstico, enfim, o paciente deve procurar organizar suas idéias para relatar ao médico e dar um voto de confiança a ele.

Valda Éster da Cruz Silva, de 37 anos, sofre de fibromialgia e colhe os frutos dessa atitude: “digo ao médico “ah, vai ver que é da minha cabeça sentir tantas dores assim” e ele me diz que não, que realmente o que eu sinto, existe, e faz tudo para tratar e controlar a dor. Se um medicamento não dá certo, ele providencia outro”.

Ver de forma global
O atendimento humanizado na saúde também envolve uma série de questões que extrapolam a relação médico e paciente. Compreende a maneira e a forma com que o paciente é tratado, incluindo-se nesse contexto uma conscientização sobre a importância de vê-lo globalmente, ou seja, o paciente não é uma doença ou um doente apenas. É um ser humano, um indivíduo que tem família, que estuda, trabalha, tem planos, sonhos e sofre por ser, de uma hora para outra, extraído de sua vida e de sua rotina para dentro de um hospital.

Um bom exemplo, contado pelo dr. Petrilli, é a brinquedoteca terapêutica implantada no Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc que possibilita uma interação fabulosa da criança com câncer com a mãe, os voluntários, psicólogos, professores, com uma equipe multidisciplinar. “Procuramos manter o elo de ligação da criança, a paciente, com a família, com a escola, com as coisas significativas da vida dela, pois é o que ela merece e isso aumenta as chances de cura”, enfatiza o especialista.

Humanizar
Ainda que tenhamos muitos perfis diferentes – tanto do médico quanto do paciente – passando pela frieza, racionalidade ou emoção à flor da pele, o fato é que é importante que cada um, com seus valores e crenças, procure buscar ser melhor na relação com o outro. O que exige reflexão e, muitas vezes, desaprender coisas para aprender de outra forma.

“Humanizar é atender ao paciente com o respeito devido a qualquer ser humano e cidadão. A boa educação, o respeito ao próximo são preceitos da humanização”, define a psicóloga dra. Belkiss.

O desafio está justamente na união equilibrada entre uma atitude humanizada e socialmente responsável com atualização do conhecimento e da capacidade de contínuo avanço tecnológico e científico.

E mais: no conseguir manter na relação médico-paciente a questão da autonomia. O dr. Atta explica: “o médico é o detentor de conhecimento e tende a fazer você, paciente, seguir o que ele determina para o seu bem. Eu tenho que me conscientizar de que o paciente é um ser humano autônomo. Ele, mesmo doente, tem a capacidade de decisão. Daí, que cabe ao médico dar os subsídios para que ele consiga decidir.”

Na prática do dia-a-dia, a relação médico-paciente ajuda ou não a melhorar a adesão do paciente ao tratamento, a fazer com que o leigo volte ao médico com suas dúvidas, antes de parar por conta própria um tratamento.

Todos sabemos de muitos casos em que o médico avisa que o paciente tem de parar de fumar, começar a caminhar, não comer sal ou açúcar, tomar o remédio na dose e no horário certos e o paciente, lá no fundo, pensa: “quem ele acha que é para me mandar fazer isso ou aquilo?”, e acaba não tratando da maneira adequada.

O resultado, quando negativo, vale para ambos: é ruim para o médico e muito mais para o paciente. E, claro, se a relação é boa, aumenta as chances de sucesso tanto no diagnóstico quanto no tratamento. Ganham os dois lados.

Para isso, é preciso que o médico faça a sua parte: atenda o paciente com respeito e atenção. Tem paciente que já sente “melhora” só pela maneira do médico cumprimentá-lo e demonstrar preocupação com o que ele está sentindo.

O paciente, por sua vez, deve perder o medo do médico. Passar a perguntar, tirar as dúvidas. Dizer que “não entendi”, não é demérito. Não é motivo de envergonhar-se. Afinal, é a sua saúde que está em jogo.

E, com certeza, se o paciente sentir-se acolhido e respeitado, e entender direitinho a doença que tem e o que ele precisa fazer – orientado pelo médico – boa parte das complicações, incapacitações e mortes, provavelmente, poderiam ser evitadas. E, nesse contexto, outros tantos benefícios poderiam ser conquistados a favor da saúde pública.

DIREITOS DO PACIENTE

A Cartilha dos Direitos do Paciente, organizada pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, por meio do Fórum de Patologias, tem 36 itens. Algumas das menções:

O PACIENTE TEM DIREITO A:

• atendimento humano, atencioso e respeitoso, por parte de todos os profissionais de saúde
• um local digno e adequado para seu atendimento
• ser identificado pelo nome e sobrenome
• receber explicações claras sobre o exame que vai fazer
• receber medicamentos essenciais para garantia de sua qualidade de vida
• ter informações claras, simples e compreensivas, adaptadas à sua condição cultural

O PACIENTE TEM O DEVER DE

zelar pela própria saúde... e participar do seu tratamento, promovendo assim uma saúde melhor para todos.

Mais informações:

Cartilha Direitos do Paciente Secretaria da Saúde do Estado de SãoPaulo
Tel: (0xx11) 3081-2817

Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc
Tel: (0xx11) 5080-8400
www.graacc.org.br

Ambulatório de Clínica Geral do HC FMUSP
Tel: (0xx11) 3069-6746

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