
Dr. José Antonio Atta em atendimento no Hospital das Clínicas - São Paulo |
CAPA
Humanização
no Atendimento Médico e Paciente:
um encontro de trocas
“A moderna Medicina preconiza que a relação médico-paciente é um encontro entre dois especialistas: um é o técnico e o outro o conhecedor da queixa e das implicações em sua vida. Então, só pode ser um encontro de trocas”, salienta a dra. Bellkiss Wilma Romano, diretora do Serviço de Psicologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Dra. Bellkiss W. Romano |
Em milhares desses encontros que acontecem todos os dias pelos hospitais e unidades de saúde no país, a relação medico-paciente, muito freqüentemente, deixa a desejar. De um lado, o paciente, pela condição de não saber o que tem ou por estar enfrentando uma doença, em geral, fragilizado, vê o médico quase como um “deus” ou o contrário, a depender do quanto esse profissional conseguiu preencher sua expectativa no menor tempo possível. De outro, está o profissional de saúde, não raras vezes, dispondo de pouco mais de cinco, dez minutos para uma consulta, dada a fila de necessitados por saúde à espera de atendimento.
O desafio está na qualidade dessa interação, guardadas as proporções de expectativas, recursos e condições disponíveis da instituição, do conhecimento médico e das possibilidades para detecção e tratamento do problema de saúde, disponibilizadas pela Ciência.
É notório o avanço tecnológico e biológico dos últimos anos. Nunca, parece, as descobertas e as pesquisas foram tão bem sucedidas na busca da cura e controle de doenças, e isso, sem dúvida, é um benefício que abriu, já, o caminho para vivermos por mais tempo.
Entretanto, “não basta o conhecimento tecnológico, a relação do homem com a sua doença é muito mais do que de uma bactéria com o anticorpo e com a célula do sangue, é mais que isso. Permeia relações interpessoais e relações sociais. A relação saúde-doença, paciente-doença é muito mais complexa do que apenas um processo biológico”, pondera o dr. José Antonio Atta, chefe do Ambulatório de Clínica Geral, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, um dos maiores da América Latina.
É preciso conciliar o lado técnico com o humano e isso vem sendo foco de preocupação na formação do médico. A humanização tem sido repensada, ensinada, propagada, discutida em cursos, nos corredores entre médico e residente (jovem profissional), cobrada pelo paciente e seus familiares.
A importância de se estabelecer uma relação de respeito entre médico e paciente (e família) é fundamental para o momento do diagnóstico e para maior aderência a tratamentos. E, inclusive, quando se necessita dar uma notícia ruim. “É fundamental explicar de uma forma verídica as coisas. Não esconder a verdade do paciente. O que precisamos é transmitir a verdade de uma forma adequada, e para isso é preciso saber com quem estamos lidando”, enfatiza o dr. Antonio Sérgio Petrilli, diretor do Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc da Universidade Federal de São Paulo.
Saber ouvir
Podemos, todos, achar fácil saber ouvir o outro. Mas, não é. Tem sido considerada uma das tarefas mais complexas e desafiantes na relação médico-paciente. Segundo a dra. Belkiss, a empatia que é a capacidade de se colocar no lugar do outro para avaliar a situação com os valores desta pessoa é uma premissa básica. “De nada adiantará o brilhantismo de um diagnóstico se não for compartilhado com o paciente”, completa a especialista.
Quantas vezes cada um de nós já ouvimos alguém (ou nós mesmos) dizer: “Puxa, finalmente encontrei um médico que quis me ouvir e mais que isso: acreditou em mim”. Quando o paciente percebe que o profissional, de fato, o atendeu com atenção, preocupado com o seu sofrimento, conquista-se meio caminho. O enfermo fica pré-disposto a saber o que tem, conhecer melhor a sua doença, compreender a importância de seguir as orientações do médico.

Dr. José Antonio Atta |
O dr. Atta, ao dar aula para o estudante de Medicina, ensina: “primeiro, você ouve com atenção o paciente. Ouvir com atenção, quer dizer, olhar. Ver o que está acontecendo, o que o paciente está sentindo, as mudanças no seu rosto na hora que ele conta os seus sintomas. Depois, escreve, dedica-se à consulta médica em si, e mesmo que ela seja curta, uma boa parte dela tem que ser reservada para a conversa com o paciente. Não basta entregar na mão dele uma receita. É preciso explicar de maneira que o paciente, independentemente do grau cultural ou sócio-econômico, compreenda.”
Concorda com essa visão, a cabeleireira Maria de Fátima da Conceição Santim, paciente do HC em São Paulo: “O médico tem que mostrar que sabe o seu problema. Não tratar você como se fosse qualquer coisa. Senão, a gente não sente confiança.”
A responsabilidade maior é do médico mesmo, pensa o dr. Atta, por crer que ele é o profissional, e por isso tem maiores condições, portanto, de saber como perguntar e informar ao paciente e o que fazer para melhorar essa relação.
Contudo, é bom que se registre o quão importante também é humanizar as condições de trabalho dos profissionais da saúde e cuidar de quem cuida, ou seja, amparar também o médico que enfrenta diversas tensões: o lidar com o sofrimento e com pacientes terminais, o receio de cometer erros, o contato com pacientes difíceis.

Dr. Antonio Sérgio Petrilli |
Envolver-se, na medida
Um outro ponto importante na humanização do atendimento é o envolvimento do médico com o paciente, o que merece esclarecimento. “Esse envolvimento, salienta o dr. Petrilli, é muito mais uma habilidade. Não é você morrer junto com o seu paciente, chorar e sofrer com a criança com câncer e com a família dela, por exemplo. O envolver-se é o estar preocupado com o paciente. Sem falsidade. E isso o paciente e a família sentem e respeitam. Mas, não é o sentimento como um membro da família.”
Humanizar, portanto, requer estarmos conscientes do seu significado para também evitarmos equívocos e pieguices. Dizem que basta tentarmos fazer o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Pelo menos pensar: “se eu estiver doente (ou minha filha, meu pai, meu marido...) como eu gostaria de ser tratado pelo médico? E como eu gostaria de saber informá-lo, ajudá-lo, de forma rápida e organizada, para que ele pudesse diagnosticar e tratar o mais rapidamente possível e da melhor maneira?”.
Aliás, o comportamento do paciente também é fator determinante no bom resultado de uma consulta. Ainda que se veja numa condição delicada, angustiante e seja comum o medo do médico, o receio de receber o diagnóstico, enfim, o paciente deve procurar organizar suas idéias para relatar ao médico e dar um voto de confiança a ele.
Valda Éster da Cruz Silva, de 37 anos, sofre de fibromialgia e colhe os frutos dessa atitude: “digo ao médico “ah, vai ver que é da minha cabeça sentir tantas dores assim” e ele me diz que não, que realmente o que eu sinto, existe, e faz tudo para tratar e controlar a dor. Se um medicamento não dá certo, ele providencia outro”.
Ver de forma global
O atendimento humanizado na saúde também envolve uma série de questões que extrapolam a relação médico e paciente. Compreende a maneira e a forma com que o paciente é tratado, incluindo-se nesse contexto uma conscientização sobre a importância de vê-lo globalmente, ou seja, o paciente não é uma doença ou um doente apenas. É um ser humano, um indivíduo que tem família, que estuda, trabalha, tem planos, sonhos e sofre por ser, de uma hora para outra, extraído de sua vida e de sua rotina para dentro de um hospital.
Um bom exemplo, contado pelo dr. Petrilli, é a brinquedoteca terapêutica implantada no Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc que possibilita uma interação fabulosa da criança com câncer com a mãe, os voluntários, psicólogos, professores, com uma equipe multidisciplinar. “Procuramos manter o elo de ligação da criança, a paciente, com a família, com a escola, com as coisas significativas da vida dela, pois é o que ela merece e isso aumenta as chances de cura”, enfatiza o especialista.
Humanizar
Ainda que tenhamos muitos perfis diferentes – tanto do médico quanto do paciente – passando pela frieza, racionalidade ou emoção à flor da pele, o fato é que é importante que cada um, com seus valores e crenças, procure buscar ser melhor na relação com o outro. O que exige reflexão e, muitas vezes, desaprender coisas para aprender de outra forma.
“Humanizar é atender ao paciente com o respeito devido a qualquer ser humano e cidadão. A boa educação, o respeito ao próximo são preceitos da humanização”, define a psicóloga dra. Belkiss.
O desafio está justamente na união equilibrada entre uma atitude humanizada e socialmente responsável com atualização do conhecimento e da capacidade de contínuo avanço tecnológico e científico.
E mais: no conseguir manter na relação médico-paciente a questão da autonomia. O dr. Atta explica: “o médico é o detentor de conhecimento e tende a fazer você, paciente, seguir o que ele determina para o seu bem. Eu tenho que me conscientizar de que o paciente é um ser humano autônomo. Ele, mesmo doente, tem a capacidade de decisão. Daí, que cabe ao médico dar os subsídios para que ele consiga decidir.”
Na prática do dia-a-dia, a relação médico-paciente ajuda ou não a melhorar a adesão do paciente ao tratamento, a fazer com que o leigo volte ao médico com suas dúvidas, antes de parar por conta própria um tratamento.
Todos sabemos de muitos casos em que o médico avisa que o paciente tem de parar de fumar, começar a caminhar, não comer sal ou açúcar, tomar o remédio na dose e no horário certos e o paciente, lá no fundo, pensa: “quem ele acha que é para me mandar fazer isso ou aquilo?”, e acaba não tratando da maneira adequada.
O resultado, quando negativo, vale para ambos: é ruim para o médico e muito mais para o paciente. E, claro, se a relação é boa, aumenta as chances de sucesso tanto no diagnóstico quanto no tratamento. Ganham os dois lados.
Para isso, é preciso que o médico faça a sua parte: atenda o paciente com respeito e atenção. Tem paciente que já sente “melhora” só pela maneira do médico cumprimentá-lo e demonstrar preocupação com o que ele está sentindo.
O paciente, por sua vez, deve perder o medo do médico. Passar a perguntar, tirar as dúvidas. Dizer que “não entendi”, não é demérito. Não é motivo de envergonhar-se. Afinal, é a sua saúde que está em jogo.
E, com certeza, se o paciente sentir-se acolhido e respeitado, e entender direitinho a doença que tem e o que ele precisa fazer – orientado pelo médico – boa parte das complicações, incapacitações e mortes, provavelmente, poderiam ser evitadas. E, nesse contexto, outros tantos benefícios poderiam ser conquistados a favor da saúde pública.
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DIREITOS DO PACIENTE |
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A Cartilha dos Direitos do Paciente, organizada pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, por meio do Fórum de Patologias, tem 36 itens. Algumas das menções:
O PACIENTE TEM DIREITO A:
• atendimento humano, atencioso e respeitoso, por parte de todos os profissionais de saúde
• um local digno e adequado para seu atendimento
• ser identificado pelo nome e sobrenome
• receber explicações claras sobre o exame que vai fazer
• receber medicamentos essenciais para garantia de sua qualidade de vida
• ter informações claras, simples e compreensivas, adaptadas à sua condição cultural
O PACIENTE TEM O DEVER DE
zelar pela própria saúde... e participar do seu tratamento, promovendo assim uma saúde melhor para todos. |
Mais informações:
• Cartilha Direitos do Paciente Secretaria da Saúde do Estado de SãoPaulo
Tel: (0xx11) 3081-2817
• Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc
Tel: (0xx11) 5080-8400
www.graacc.org.br
• Ambulatório de Clínica Geral do HC FMUSP
Tel: (0xx11) 3069-6746
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