
Dr. Lincoln Marcelo Silveira
Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e 1º vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) |
RECEITA
Por uma infância segura
A violência e os acidentes na infância e na adolescência se transformaram, nas últimas décadas, em grave problema de saúde pública. Isto faz com que nós pediatras voltemos, mais ainda, o nosso olhar para o assunto, hoje indissociável do bom atendimento médico e, mais ainda, do nosso trabalho na prevenção de adoecimentos e da mortalidade meta que consideramos a nossa grande missão. As causas externas os acidentes e a violência são o segundo fator mais importante de mortalidade no Brasil em geral e ocupam o primeiro lugar nas estatísticas referentes à faixa etária de 5 a 19 anos. E pior, esta situação vem se agravando também entre as crianças menores, de 1 a 4 anos. Por isto mesmo, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) está em campanha permanente, lembrando que a prevenção começa na gravidez, com a construção do vínculo afetivo entre mãe, pai e filho.
Hoje é quase uma unanimidade no meio médico que a relação afetiva entre os pais e o bebê se inicia no verdadeiro desejo de que a criança faça parte da família. Também não se duvida de que a saúde emocional tenha repercussões sobre os aspectos físicos das crianças e de seus familiares. Nem há quem duvide tampouco da necessidade imperativa do fortalecimento dos vínculos de afeto que, ao longo da vida, serão construídos, trabalhados, conflitados, como em todas as relações humanas.
Por tudo isto, cada vez mais sabemos da importância de um bom pré-natal, assim como é claro ser este o momento no qual o pediatra deve começar sua prática de orientação às famílias. No parto, cabe ao pediatra receber a criança e proporcionar-lhe, assim como à sua mãe, o direito de ambos ao contato, ao conhecimento, à presença no peito que favorecerá a descida do colostro. Em seguida, é também decisivo o alojamento conjunto outra de nossas bandeiras, hoje já realidade em boa parte do sistema público. Em casa, é importante também que, independente das condições financeiras, seja reservado um cantinho para o bebê, atitude que favorecerá o exercício da sua privacidade, assim como também a de seus pais.
A medida em que a criança cresce, o ambiente doméstico terá que ser adaptado. O Passaporte para a Segurança, editado pela SBP, lembra, entre várias orientações, que de 0 a 3 anos, objetos pequenos e cortantes devem ser mantidos fora do alcance da criança, brinquedos devem ser grandes o suficiente para não serem engolidos, o bebê não pode sob hipótese alguma ficar sozinho na banheira, nem por poucos segundos, e a cozinha é área de alto risco.
Ressalto que a prevenção de acidentes e da violência entre os bebês passa pelo atendimento de suas necessidades emocionais, frisando a importância de que os pais, com a ajuda do pediatra e do bom senso, desenvolvam o discernimento sobre o significado do choro, lembrando sempre que um pouco de colo, na fase em que a criança não sabe falar e pelo menos até que se descubra qual é sua reivindicação, sempre ajuda o bebê a se desenvolver bem. Saliento também que todos os estudos científicos desa-conselham a palmada e que, com todas as dificuldades impostas à vida moderna, o diálogo continua sendo a melhor e mais educativa solução. Afinal, como diz o slogan da campanha da SBP, Violência é covardia. As marcas ficam na sociedade.