
Dr. Benedicto Nelson dos Santos
e Dra. Cléa Rodrigues Leone |
CAPA
Um é pouco, dois é bom, três ou mais são o máximo!
As gestações múltiplas, que correspondem a dois ou mais fetos, devem ser cuidadosamente acompanhadas durante o pré-natal. É que estas gestações costumam ter menor duração, sendo freqüentes os partos prematuros, com o nascimento de recém-nascidos com menos de 37 semanas. Além disso, a taxa de partos cesáreos é maior em relação às gestações únicas. Os gêmeos ao nascimento podem ter diferença de peso, que se for muito baixo demanda acompanhamento nas unidades de terapia intensiva. Já os mais pesadinhos, com cerca de 2 kg, são acolhidos nas rotinas normais da maternidade.
Matheus e Bianca estão com a corda toda. É que o casal de gêmeos de um ano e meio está se preparando para a ida matinal ao clube Pinheiros, em São Paulo, passeio que adoram curtir ao lado dos avós paternos e da mãe, a nutricionista Kátia Liberado (veja quadro abaixo).
A notícia da dose dupla ou tripla a princípio assusta muitos pais. Na cabeça, o pensamento em geral é será que vamos dar conta de criar mais de um filho? Contudo, depois do impacto inicial a maioria curte a idéia de criar os baixinhos ao mesmo tempo. O fato é que devido às fertilizações, as gestações múltiplas têm se tornado uma realidade na vida de muitos casais.
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Uma história de sucesso
Nas suas doces brincadeiras, os pequenos Matheus e Bianca não imaginam o empenho dos pais, a nutricionista Kátia Liberado e o gerente de marketing Marcelo, para trazê-los ao mundo. O casal já havia perdido três gestações, sendo a última com quase quatro meses e meio.
Eu tinha problema de ovulação e insuficiência istmo cervical do colo do útero, que se abre espontaneamente, recorda Kátia, que, para garantir a gestação dos filhos até a 32a. semana, passou os últimos 75 dias em repouso hospitalar sob a supervisão atenta dos médicos Dirceu Henrique Pereira e Carlos Eduardo Czeresnia. Após o rompimento da bolsa, o doutor Carlos entrou com medicamento para acelerar o desenvolvimento dos pulmões dos bebês prematuros e esperou 36 horas para fazer o parto cesária com êxito. Desta forma, eles não precisaram de respirador artificial quando nasceram, ficando 15 dias na UTI somente para ganhar peso.
E não podemos esquecer que a mãe teve talvez a parcela mais importante desta conquista, pois se manteve calma e bem humorada durante todo o período de repouso, lembra o pai. A mãe não poderia estar mais feliz com a dupla. Aliás, como a filha, ela também tem um irmão gêmeo.
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Dose dupla ou tripla exige atenção especial:
Cuidados em alta
A mamãe que gesta múltiplos se queixa mais de enjôos e mal-estar por causa da quantidade elevada de hormônios. O maior aumento de peso sobrecarrega músculos e esqueleto, causando mais dores nas costas.
Médico é bom companheiro
Segundo o obstetra Dr. Benedicto Nelson dos Santos, da Sociedade de Pediatria de São Paulo, na gravidez de múltiplos, o pré-natal é essencial.
No hospital: apoio e carinho
Boa parte dos bebês é prematura, nascendo antes de 40 semanas e a indicação de parto cesário é comum.
UTI com carinho
Há bebês que permanecem nas unidades de terapia intensiva para que alguns órgãos amadureçam, como os pulmões. Outros ficam nas incubadoras para ganhar peso e deixar o hospital com cerca de 2kg.
Apoio é fundamental
Não é fácil a mãe ter alta e o bebê ficar na maternidade. Além da orientação médica, os pais recebem suporte psicológico e o horário de visitas costuma ser bem flexível.
Chegada em casa
Segundo a neonatologista Dra. Cléa Rodrigues Leone, vice-presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo, para receber alta do berçário a criança deve ter pelo menos 72 horas de vida, manter a temperatura corporal, ter sucção vigorosa e estar ganhando peso, entre outros.
Ajuda é bem-vinda
Na maternidade tudo bem, pois há gente especializada de plantão. Mas na hora em que a turma chega em casa... É o momento de lembrar o ditado mãe é uma só. Para dar conta de dois ou mais bebês, o jeito é pedir auxílio aos avós, parentes e, claro, ao pai. Se possível, vale a pena contratar uma ajudante.
Visitas reguladas
Bebês pequenos não devem entrar em contato com vírus e bactérias. É que seus sistemas de defesa ainda estão maturando.
Amamentação é indicada
Porém em casos de trigêmeos, a mãe pode não suprir todo o leite necessário. Aí é preciso usar fórmulas lácteas e fazer rodízio das mamadas no peito entre os nenês. Sempre com orientação médica.
Rotina evita confusão
Segundo o pediatra Dr. João Coriolano Rego Barros, diretor de Cursos e eventos da SPSP, estabelecer uma seqüência de ações evita repetições, sobretudo na hora de administrar medicamentos.
Personalidades são diferentes
Veja como cuidar dos pequenos de acordo com a psicanalista Dra. Renata De Luca, presidente do departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo:
Idênticas só no físico: mesmo que as crianças sejam iguaizinhas do ponto de vista genético, devem ter sua individualidade respeitada. Isso previne uma relação de espelhamento, que exigirá dos pequenos grande esforço no futuro para se diferenciar do irmão.
Diferença não quer dizer preferência: as crianças nascidas no mesmo parto vão viver tudo ao mesmo tempo. Contudo, os pais não devem se esforçar para fazer tudo igual para elas, o que inclui vesti-las da mesma forma. Não há porque trazer dois chocolates para casa se somente uma gosta da guloseima. Pode-se trazer um chocolate e um salgado, por exemplo. Se uma gostar de balé e outra de futebol, as preferências individuais devem ser incentivadas.
Ciúmes faz parte do cotidiano: a rivalidade pelo amor dos pais existe, mas a relação entre as crianças costuma ser mais tranqüila porque elas se acostumam uma à outra desde cedo. Não é como um irmãozinho novo que vem ameaçar o reinado.
Falhas fazem parte da vida: os pais sentem-se muito culpados quando não conseguem suprir tudo o que imaginam que os filhos precisam. Mas as limitações fazem parte da vida e é bom que a criança aprenda a superá-las.